Essa coisa de sempre a verdade, a verdade, a verdade... Grande mentira
Não, não tem como se soltar as palavras na medida certa. Ou as mantemos na rédea curta ou elas vão correndo por aí, e mesmo quando são poucas, são precisas.
Sabe, as palavras sumiram, ficou a cachaça ou a abstinência dela. As palavras sumiram e ficaram os olhos, hora abertos, hora fechados. Ficou no meio da sala uma grande palavra atravessada, um palavrão, CAARAAALHO. E o caralho batia nas coxas, e o caralho batia nos joelhos, batia na cara dependendo da posição. Não, aquele caralho atravessado, não! Pus o caralho pra fora e você bateu a porta.
Essa coisa de sempre a verdade, a verdade, a verdade... Grande mentira. Mas pro caralho essa porta, pois essa porra eu não engulo.
Sabe aquelas palavras mágicas? Aquelas palavras desencadeadoras de encantamentos, ou feitiços, como preferir. Palavras que apartam e desapartam, hora trazem, hora levam. A gente sempre sabe sobre seus comandos, na verdade às vezes se engana, mas não tem jeito. É como uma canastra limpa, não tem como não baixar. Se não, elas se acumulam, se acumulam, até o ponto em que se misturam e escondem seus sentidos.
Mas fim de jogo, quem ganhou?
Mentira, o jogo de palavras, titulares e reservas, se protela. Por hora, apenas jogadores igualmente perdedores e ganhadores. Ao fim, veremos a quem pertence qual verdade. Qual narrativa irá se constituir e qual memória se recriará.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
quinta-feira, 10 de março de 2011
Galhofa
Tantas doses, combinações e saideiras
Pra lá de mil análises probabilísticas alcoolizadas
Tantos nomes e promessas
expectativas de um crescente fértil
Tantos agentes químicos e naturais
digo, previsíveis e ocasionais
Para quando, no exercício hermenêutico em meio a ordinários sinais,
ter-se o desenvolvimento de um pseudo campo sensorial super sensível
Galhofa
São só ouvidos para dentro
São olhos para a mente projetada no nada do lado de dentro
É só calma e respiração
Mas sabe o que trinca?
O que rompe e trás pro chão?
Tudo
e às vezes nada
Sabe
A maior de todas as ondas
pertence às coisas do amor
Pra lá de mil análises probabilísticas alcoolizadas
Tantos nomes e promessas
expectativas de um crescente fértil
Tantos agentes químicos e naturais
digo, previsíveis e ocasionais
Para quando, no exercício hermenêutico em meio a ordinários sinais,
ter-se o desenvolvimento de um pseudo campo sensorial super sensível
Galhofa
São só ouvidos para dentro
São olhos para a mente projetada no nada do lado de dentro
É só calma e respiração
Mas sabe o que trinca?
O que rompe e trás pro chão?
Tudo
e às vezes nada
Sabe
A maior de todas as ondas
pertence às coisas do amor
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Tomo
Te tomei
Me pus dentro de seu pátio e inflei meus gritos de vitória
Bradei bandeiras em espiral, rodopios dentro de ti
Toquei citara e compus melodias de arranha céus muito maiores do que os muros de pedra
Pulei, saltei, engoli
Saliva e suores disparados do meu coração
E tu
Vibrante feito brisa
Se ateve em me aportar; rodopios dentro de mim
Mas no quinto dia útil
Um motim de fenos e gatos
Saltei muros antes da queda
De quem é a liberdade?
Pés em trilhas, pátio vazio, idéias soltas divagando
Espírito em curso pelas modas
Cambalhotas pelo mundo até o fim do equador
Mas gira o mundo, cai o dia
Cai a noite fria
E novamente me recolheste
Mãos sobrepostas na beira da fogueira
Beijos, toques, olhares e carinhos no coração
Piruetas de trás pra frente
Rodopios quase infantis
Pausa para o descanso
Me pus dentro de seu pátio e inflei meus gritos de vitória
Bradei bandeiras em espiral, rodopios dentro de ti
Toquei citara e compus melodias de arranha céus muito maiores do que os muros de pedra
Pulei, saltei, engoli
Saliva e suores disparados do meu coração
E tu
Vibrante feito brisa
Se ateve em me aportar; rodopios dentro de mim
Mas no quinto dia útil
Um motim de fenos e gatos
Saltei muros antes da queda
De quem é a liberdade?
Pés em trilhas, pátio vazio, idéias soltas divagando
Espírito em curso pelas modas
Cambalhotas pelo mundo até o fim do equador
Mas gira o mundo, cai o dia
Cai a noite fria
E novamente me recolheste
Mãos sobrepostas na beira da fogueira
Beijos, toques, olhares e carinhos no coração
Piruetas de trás pra frente
Rodopios quase infantis
Pausa para o descanso
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Rasgue depois de ler
Não consigo Carlos…
É uma conclusão, uma acusação, uma ventania que invade os poros do rosto quando ficamos parados na frente da janela de um carro descontrolado a cem mil quilômetros por hora.
Não consigo deixar de me envolver.
Eu me tornei a pessoa que ela liga quando sente falta, quando quer mostrar seu projeto novo… Vaca! Como ela consegue? Ela passou mais de três meses dormindo sobre a bagunça dos meus cachos e agora consegue ser mais insensível que a pele de um leproso!
Queria saber quando foi que minhas expectativas deixaram de fazer parte das dela. Em qual parte do filme eu cochilei? Perdi alguma coisa? Fico me perguntando, Carlos… Eu sei o que você vai dizer. Vai dizer que se estivesse aqui me daria um tapa! Mas agora, depois de ter chorado quase uma noite inteira essas perguntas não me perturbam mais. O que me tira o sono é essa onda de desafeto generalizado porra! E pra ser ainda mais piegas do que esse gole de café que tomo agora, me atrevo a reclamar o que é meu. Sim, pois se era verdadeiro aquele sentimento vadio que sentia, ela me deve um pouco mais que algumas respostas evasivas.
Eu dei minha cara à tapa, Carlos. Disse que fecharia meus olhos… Deus! Eu fecharia os olhos! Dá pra acreditar? Logo eu?
Pode rir, mas não faz essa cara… Eu sei que mereço o tapa. Mereço!
Agora vou esperar esse tapa me despertar pro carnaval. Porque agora sim, definitivamente, sou uma solteira no carnaval carioca!
(Por Leticia Lopes in: http://whylifeisunfair.wordpress.com/)
É uma conclusão, uma acusação, uma ventania que invade os poros do rosto quando ficamos parados na frente da janela de um carro descontrolado a cem mil quilômetros por hora.
Não consigo deixar de me envolver.
Eu me tornei a pessoa que ela liga quando sente falta, quando quer mostrar seu projeto novo… Vaca! Como ela consegue? Ela passou mais de três meses dormindo sobre a bagunça dos meus cachos e agora consegue ser mais insensível que a pele de um leproso!
Queria saber quando foi que minhas expectativas deixaram de fazer parte das dela. Em qual parte do filme eu cochilei? Perdi alguma coisa? Fico me perguntando, Carlos… Eu sei o que você vai dizer. Vai dizer que se estivesse aqui me daria um tapa! Mas agora, depois de ter chorado quase uma noite inteira essas perguntas não me perturbam mais. O que me tira o sono é essa onda de desafeto generalizado porra! E pra ser ainda mais piegas do que esse gole de café que tomo agora, me atrevo a reclamar o que é meu. Sim, pois se era verdadeiro aquele sentimento vadio que sentia, ela me deve um pouco mais que algumas respostas evasivas.
Eu dei minha cara à tapa, Carlos. Disse que fecharia meus olhos… Deus! Eu fecharia os olhos! Dá pra acreditar? Logo eu?
Pode rir, mas não faz essa cara… Eu sei que mereço o tapa. Mereço!
Agora vou esperar esse tapa me despertar pro carnaval. Porque agora sim, definitivamente, sou uma solteira no carnaval carioca!
(Por Leticia Lopes in: http://whylifeisunfair.wordpress.com/)
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Medos privados, lugares públicos
Agora há pouco um homem brigava na rua, briga solitária de um olho só. Um louco, bradando alto com um desafeto imaginário.
- Um absurdo, isso contraria as normas do estatuto.
Dizia ele com o dedo apontado na cara do vento. Há muito devem lhe faltar inimigos, coisa triste tendo em conta que estes são os últimos ouvintes a te abandonarem.
Louco aquele homem, explanando suas rusgas debaixo do semáforo aos olhos dos pedestres. Loucura sob buzinas e pressa, loucura espalhada em vielas invisíveis, espremida entre compromissos e medos; urbanidade.
Continuei andando, deixei o homem e suas razões numa confusa encruzilhada e pensei no espaço apertado do meu apartamento. Pensei em quantas vozes suas paredes abafaram, em quantos rostos nasceram e morreram nos galhos das plantas subdesenvolvidas por falta de sol. Pensei na falta que meus inimigos me faziam e nas verdades que teria pra dizer.
Quis gritar, quis chamar, falar, bater, beijar, amar, matar... Enquanto me contentava em bradar minha colher de pau na cara do azulejo branco da cozinha cuspindo frases de repudio à tudo que me dói. Frases berradas por 4 m², concorrentes da água corrente da torneira aberta, do chacoalhar da maquina de lavar, do transito com a cara na janela, ou ainda do silencio das 2h40 da manha.
É... Brigava eu com os azulejos da cozinha, sorria eu com os cata-ventos da janela, gozava eu com gel, pilhas e downloads.
Que louco aquele homem exposto no passeio público.
- Um absurdo, isso contraria as normas do estatuto.
Dizia ele com o dedo apontado na cara do vento. Há muito devem lhe faltar inimigos, coisa triste tendo em conta que estes são os últimos ouvintes a te abandonarem.
Louco aquele homem, explanando suas rusgas debaixo do semáforo aos olhos dos pedestres. Loucura sob buzinas e pressa, loucura espalhada em vielas invisíveis, espremida entre compromissos e medos; urbanidade.
Continuei andando, deixei o homem e suas razões numa confusa encruzilhada e pensei no espaço apertado do meu apartamento. Pensei em quantas vozes suas paredes abafaram, em quantos rostos nasceram e morreram nos galhos das plantas subdesenvolvidas por falta de sol. Pensei na falta que meus inimigos me faziam e nas verdades que teria pra dizer.
Quis gritar, quis chamar, falar, bater, beijar, amar, matar... Enquanto me contentava em bradar minha colher de pau na cara do azulejo branco da cozinha cuspindo frases de repudio à tudo que me dói. Frases berradas por 4 m², concorrentes da água corrente da torneira aberta, do chacoalhar da maquina de lavar, do transito com a cara na janela, ou ainda do silencio das 2h40 da manha.
É... Brigava eu com os azulejos da cozinha, sorria eu com os cata-ventos da janela, gozava eu com gel, pilhas e downloads.
Que louco aquele homem exposto no passeio público.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Ressaca, maresia e fundo de baia.
parte 2: Sedimentação e metamorfismos; A cerimônia da vida.
Um dia fresco, nuvens redondas no céu, vento que passa e anda apressado pelas calçadas. Vento que sopra nos bares, lanchonetes, lojas de rua, entra no meu quarto e bagunça meus papeis. Dia diferente. Há uma promessa passeando pelas ruas, algo grande vai acontecer.
Camila não sabia bem o que esperava daquele dia amanhecido em novidade. Grande mentira, sim ela sabia o que esperava, mas também sabia que o que esperava era algo impossível de acontecer. Não podendo esperar pelo que queria, se perguntou o que de grande aconteceria naquele dia de nuvens redondas filtrando o sol e vento apressado mexendo em tudo, o que?
Suas náuseas andavam mais comportadas, não porque elas tenham sossegado sozinhas ou sob drogas coercivas às suas manifestações, mas Camila de alguma forma as adestrou. Não, ela não as dizia, sente, quieta, calada, não, não.. Mas ela aprendeu a olhar no fundo da espuma perolada acumulada na água da privada. Sentia seu cheiro, e ela cheirava à água recém fervida, trazia o calor do seu corpo e os odores de seus órgãos internos. Camila morria.
Morria e foi andar de bicicleta. O dia estava diferente, prometendo, iludindo, pedindo, preparando e anunciando algo grande.
Um anúncio calado, lançado em sopros fortes e luz meio fosca. Idéia mais torta de Camila. Não, o teto não se abriria e ecoaria uma voz entoando blasfêmia ou qualquer outra coisa, nem pra ralhar deus apareceria. Ninguém apareceria. Foram todos embora, menos a espuma perolada sobre a água do fundo da privada. Esta a encarava por diversas manhas, e quando a encarava em sua memória, a espuma voltava sob outras cores, cores olhadas nos olhos. Cores de amor agora jogadas à privada.
Algo grande se fazia necessário; um sorvete de creme, um barco, um mar, um beijo inseguro, um deslize do medo.
Camila vivia.
Vivia e foi andar de bicicleta.
Um dia fresco, nuvens redondas no céu, vento que passa e anda apressado pelas calçadas. Vento que sopra nos bares, lanchonetes, lojas de rua, entra no meu quarto e bagunça meus papeis. Dia diferente. Há uma promessa passeando pelas ruas, algo grande vai acontecer.
Camila não sabia bem o que esperava daquele dia amanhecido em novidade. Grande mentira, sim ela sabia o que esperava, mas também sabia que o que esperava era algo impossível de acontecer. Não podendo esperar pelo que queria, se perguntou o que de grande aconteceria naquele dia de nuvens redondas filtrando o sol e vento apressado mexendo em tudo, o que?
Suas náuseas andavam mais comportadas, não porque elas tenham sossegado sozinhas ou sob drogas coercivas às suas manifestações, mas Camila de alguma forma as adestrou. Não, ela não as dizia, sente, quieta, calada, não, não.. Mas ela aprendeu a olhar no fundo da espuma perolada acumulada na água da privada. Sentia seu cheiro, e ela cheirava à água recém fervida, trazia o calor do seu corpo e os odores de seus órgãos internos. Camila morria.
Morria e foi andar de bicicleta. O dia estava diferente, prometendo, iludindo, pedindo, preparando e anunciando algo grande.
Um anúncio calado, lançado em sopros fortes e luz meio fosca. Idéia mais torta de Camila. Não, o teto não se abriria e ecoaria uma voz entoando blasfêmia ou qualquer outra coisa, nem pra ralhar deus apareceria. Ninguém apareceria. Foram todos embora, menos a espuma perolada sobre a água do fundo da privada. Esta a encarava por diversas manhas, e quando a encarava em sua memória, a espuma voltava sob outras cores, cores olhadas nos olhos. Cores de amor agora jogadas à privada.
Algo grande se fazia necessário; um sorvete de creme, um barco, um mar, um beijo inseguro, um deslize do medo.
Camila vivia.
Vivia e foi andar de bicicleta.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Ressaca, maresia e fundo de baia.
parte 1: Construção e caos; retrabalho na linha de costa.
Água. Água salobra, gordurosa e abundante. Água espumante e um pouco mineral. Água viva e quente a minar de sua língua, garganta e céu, a transbordar das bochechas, incitando boca, cabeça, tronco, bacia e joelhos... Todos ao vômito.
Abraçada ao vaso sanitário, Camila se derretia e expurgava, quando não todos os líquidos, todos os vapores retidos em suas tripas. Tinha o ventre dolorosamente constrito, aliás, tinha pálpebras, dedos, pele, unhas e tudo mais constritos no afã de conter os solavancos propulsados por seu tubo digestivo. E mesmo com a consciência sedenta pela própria fuga, Camila se reservava o direito de impedir que seus olhos já vermelhos e lacrimados ao excesso também não saltassem para boiar junto com a gosma amarelada acumulada sobre a água da privada.
- Puta que pariu! Não agüento mais.
Esbravejou Camila se largando exausta no chão claro do banheiro.
Aquelas crises nunca tinham sido tão intensas, tão insuportáveis. Já tinha cortado quase todos os prazeres da vida: álcool; refrigerantes; cigarros; café; mulheres; frutas cítricas ao chantilly, mas isso ainda não bastava. Sua gastrite estava mais feroz do que nunca, com ares de ter vindo a mando de deus.
Ah, aquilo não era nada justo. Já não bastava ter sido relegada ao fel do preterimento após ser substituída por um lutador de sumô de São José do Ribamar? Já não bastavam as náuseas elementares de suas recentes lembranças? Não. Faltavam ainda muitas agulhas para completar a bruxaria que recaia sobre sua carne e vida. Com ainda 35% de seu corpo sadio, muitas dores ainda viriam a caminho.
- Vai pro inferno seu filho da puta!
Frase cuspida por Camila com os olhos fixos no teto do banheiro. Mas com quem ela falava? Por uns instantes ficou atônita. Na verdade ficou com o cú na mão. Temia que o teto se abrisse e dele partisse uma luz forte e uma voz sombria entoando: Blasfêêêêmia. Mas logo retomou o juízo. Não, nem deus nem papai Noel. Seu azar era seu mesmo e o teto não se abriu. Por ali ficou mais uns seis minutos até os espasmos de seu estomago darem uma trégua.
Minimamente recomposta da rotineira crise matinal, Camila se levantou, foi à cozinha, bebeu seu copo d’agua, comeu um crem cracker, foi para o quarto e acendeu seu cachimbo.
- No mínimo isso eu tenho direito.
Disse Camila com a voz embargada, contida na garganta prendendo imediatamente a fumaça de seu primeiro trago do dia.
continua na próxima parte.
Água. Água salobra, gordurosa e abundante. Água espumante e um pouco mineral. Água viva e quente a minar de sua língua, garganta e céu, a transbordar das bochechas, incitando boca, cabeça, tronco, bacia e joelhos... Todos ao vômito.
Abraçada ao vaso sanitário, Camila se derretia e expurgava, quando não todos os líquidos, todos os vapores retidos em suas tripas. Tinha o ventre dolorosamente constrito, aliás, tinha pálpebras, dedos, pele, unhas e tudo mais constritos no afã de conter os solavancos propulsados por seu tubo digestivo. E mesmo com a consciência sedenta pela própria fuga, Camila se reservava o direito de impedir que seus olhos já vermelhos e lacrimados ao excesso também não saltassem para boiar junto com a gosma amarelada acumulada sobre a água da privada.
- Puta que pariu! Não agüento mais.
Esbravejou Camila se largando exausta no chão claro do banheiro.
Aquelas crises nunca tinham sido tão intensas, tão insuportáveis. Já tinha cortado quase todos os prazeres da vida: álcool; refrigerantes; cigarros; café; mulheres; frutas cítricas ao chantilly, mas isso ainda não bastava. Sua gastrite estava mais feroz do que nunca, com ares de ter vindo a mando de deus.
Ah, aquilo não era nada justo. Já não bastava ter sido relegada ao fel do preterimento após ser substituída por um lutador de sumô de São José do Ribamar? Já não bastavam as náuseas elementares de suas recentes lembranças? Não. Faltavam ainda muitas agulhas para completar a bruxaria que recaia sobre sua carne e vida. Com ainda 35% de seu corpo sadio, muitas dores ainda viriam a caminho.
- Vai pro inferno seu filho da puta!
Frase cuspida por Camila com os olhos fixos no teto do banheiro. Mas com quem ela falava? Por uns instantes ficou atônita. Na verdade ficou com o cú na mão. Temia que o teto se abrisse e dele partisse uma luz forte e uma voz sombria entoando: Blasfêêêêmia. Mas logo retomou o juízo. Não, nem deus nem papai Noel. Seu azar era seu mesmo e o teto não se abriu. Por ali ficou mais uns seis minutos até os espasmos de seu estomago darem uma trégua.
Minimamente recomposta da rotineira crise matinal, Camila se levantou, foi à cozinha, bebeu seu copo d’agua, comeu um crem cracker, foi para o quarto e acendeu seu cachimbo.
- No mínimo isso eu tenho direito.
Disse Camila com a voz embargada, contida na garganta prendendo imediatamente a fumaça de seu primeiro trago do dia.
continua na próxima parte.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Brainstorm apaixonado
Não sei, vamos ver no que vai dar...
Era a frase que ela sempre repetia quando pensava nos poréns...
Estranhamente esta frase a confortava.
Estranhamente, é confortável assumir que não se pode fazer nada na direção de um carro a aquaplanar.
Será assim a vida?
Um veículo a aqualanar?
Sim, sem direção, sem controle, sem essa falsa impressão de dono da história
Contava com a sorte. Como sempre contou.
A sorte salvou sua vida, ainda em seus primeiros dias.
Infecções, bronquite, otite, orfandade.
A sorte a brindou com pessoas
Amigos, amores, avós, pais
Também a brindou com horrores
Vistos por lentes de 3,75 graus de miopia
A sorte salvou sua vida, ainda em seus últimos dias
Amigos, amores, avós, pais, coração
Sim, seu coração
Tão palpitante que às vezes fugia do peito
Não, não senhor coração
Não corra por ai atrás de sua razão
Levante o dedo do meio bem na cara do tempo perdido
Você bate e pronto
Bate e pronto
Bate e ponto
Amo, logo existo.
Era a frase que ela sempre repetia quando pensava nos poréns...
Estranhamente esta frase a confortava.
Estranhamente, é confortável assumir que não se pode fazer nada na direção de um carro a aquaplanar.
Será assim a vida?
Um veículo a aqualanar?
Sim, sem direção, sem controle, sem essa falsa impressão de dono da história
Contava com a sorte. Como sempre contou.
A sorte salvou sua vida, ainda em seus primeiros dias.
Infecções, bronquite, otite, orfandade.
A sorte a brindou com pessoas
Amigos, amores, avós, pais
Também a brindou com horrores
Vistos por lentes de 3,75 graus de miopia
A sorte salvou sua vida, ainda em seus últimos dias
Amigos, amores, avós, pais, coração
Sim, seu coração
Tão palpitante que às vezes fugia do peito
Não, não senhor coração
Não corra por ai atrás de sua razão
Levante o dedo do meio bem na cara do tempo perdido
Você bate e pronto
Bate e pronto
Bate e ponto
Amo, logo existo.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Mudança de planos
Calmamente
abra os olhos, veja o rosa das nuvens espalhadas pelo céu
Veja a cor do sol pelas paredes
Ouça o barulho da rua
tente descobrir a hora pelo volume das buzinas
Ainda cedo?
Role na cama um pouco mais
Feche os olhos novamente, sinta preguiça por alguns instantes.
Sinta o calor da vida despertando para outros sonhos
Mexa seus quadris em um rumo delicado
Jogue a perna por cima
A segure, a abrace, a beije no pescoço e diga: bom dia.
abra os olhos, veja o rosa das nuvens espalhadas pelo céu
Veja a cor do sol pelas paredes
Ouça o barulho da rua
tente descobrir a hora pelo volume das buzinas
Ainda cedo?
Role na cama um pouco mais
Feche os olhos novamente, sinta preguiça por alguns instantes.
Sinta o calor da vida despertando para outros sonhos
Mexa seus quadris em um rumo delicado
Jogue a perna por cima
A segure, a abrace, a beije no pescoço e diga: bom dia.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Ainda sobre a precoce crise da meia idade
Sabe aquela gordinha com roupas da Xuxa, tarada toda a vida e que dizia: beijinho, beijinho, pau, pau?
Aquela, aquela...A...DONA CACILLLLDA, isso, Dona Cacilda. Não lembra?
Ah, não. Tudo bem, era só um exemplo para em seguida eu dizer: nossa, minha vizinha lembra ela. Aquela gorda de meio metro se achando a gostosa e tarando os peões da obra da Cedae em frente. Deus que medonho!
Não, não... Pior ainda... Sabe aquele cara, camelô de cervejas e refrigerantes com camisa paraguaia dos Lakes e cabelo canecalon? Canecalon, não sabe? Tipo... meio capitão Jack, meio Coalhada... Não lembra do Coalhada?? Chico Anysio, porra, não sabe também? Beleza, é antigo mesmo.
Mas enfim, era só mais um exemplo pra chegar e dizer que aquele cabelinho já deu, né? Só na cabeça do cara é que se combinam peruca de charutos e bigode malandrinho. Mon dieu!
Mas sabe de uma coisa pior... Olha essa é foda. Sabe esses velhos que dão passadas de no máximo 7º de abertura, andam a 20m/h e não pensam duas vezes antes de atravessar a rua com o sinal verde para pedestres piscando desesperadamente anunciando a brevíssima autorização para a passagem dos carros por cima de quem estiver no asfalto??
Ah, isso você sabe, né? Não tem como nunca ter reparado num véio assim na rua. Um véio genérico qualquer, trotando sem pulos na faixa de pedestres. Não? Nunca reparou?
Hum...É, às vezes a gente tá distraído e nem se toca das coisas da rua, né verdade?
Mas olha, tem uma parada que não dá pra não reparar. Sabe aquela gente com guarda-chuva aberto sob uma chuva imaginaria que caía, do verbo não cai mais, e só o retardado não reparou nisso? E o pior; não reparou que estava debaixo da marquise, não reparou nas pessoas na direção contrária, não reparou na altura de seu guarda-chuva alinhada aos olhos, testa, boca, cabelo e tudo mais dos ombros para cima daqueles em sua direção contraria.
Ah fala serio, você nunca foi alvejado por um patife desses, pra em seguida num universo paralelo perdido em sua consciência, enfiar aquela porra do guarda-chuva no cú do filho da puta e abrir e fechar, abrir e fechar, abrir e fechar, abrir e fechar...
Ah, isso você já reparou, né? Sabia, não tinha como não reparar. Com todo mundo acontece isso. Agora fala; não dá vontade de enfiar o guarda-chuva e abrir e fechar, abrir e fechar, abrir e fechar??
Não?! Dá não?! Nunquinha?!
Putz, acho que estou ficando velha.
(velha ao ponto de conversar com nabos e couves-flores)
Fim.
Aquela, aquela...A...DONA CACILLLLDA, isso, Dona Cacilda. Não lembra?
Ah, não. Tudo bem, era só um exemplo para em seguida eu dizer: nossa, minha vizinha lembra ela. Aquela gorda de meio metro se achando a gostosa e tarando os peões da obra da Cedae em frente. Deus que medonho!
Não, não... Pior ainda... Sabe aquele cara, camelô de cervejas e refrigerantes com camisa paraguaia dos Lakes e cabelo canecalon? Canecalon, não sabe? Tipo... meio capitão Jack, meio Coalhada... Não lembra do Coalhada?? Chico Anysio, porra, não sabe também? Beleza, é antigo mesmo.
Mas enfim, era só mais um exemplo pra chegar e dizer que aquele cabelinho já deu, né? Só na cabeça do cara é que se combinam peruca de charutos e bigode malandrinho. Mon dieu!
Mas sabe de uma coisa pior... Olha essa é foda. Sabe esses velhos que dão passadas de no máximo 7º de abertura, andam a 20m/h e não pensam duas vezes antes de atravessar a rua com o sinal verde para pedestres piscando desesperadamente anunciando a brevíssima autorização para a passagem dos carros por cima de quem estiver no asfalto??
Ah, isso você sabe, né? Não tem como nunca ter reparado num véio assim na rua. Um véio genérico qualquer, trotando sem pulos na faixa de pedestres. Não? Nunca reparou?
Hum...É, às vezes a gente tá distraído e nem se toca das coisas da rua, né verdade?
Mas olha, tem uma parada que não dá pra não reparar. Sabe aquela gente com guarda-chuva aberto sob uma chuva imaginaria que caía, do verbo não cai mais, e só o retardado não reparou nisso? E o pior; não reparou que estava debaixo da marquise, não reparou nas pessoas na direção contrária, não reparou na altura de seu guarda-chuva alinhada aos olhos, testa, boca, cabelo e tudo mais dos ombros para cima daqueles em sua direção contraria.
Ah fala serio, você nunca foi alvejado por um patife desses, pra em seguida num universo paralelo perdido em sua consciência, enfiar aquela porra do guarda-chuva no cú do filho da puta e abrir e fechar, abrir e fechar, abrir e fechar, abrir e fechar...
Ah, isso você já reparou, né? Sabia, não tinha como não reparar. Com todo mundo acontece isso. Agora fala; não dá vontade de enfiar o guarda-chuva e abrir e fechar, abrir e fechar, abrir e fechar??
Não?! Dá não?! Nunquinha?!
Putz, acho que estou ficando velha.
(velha ao ponto de conversar com nabos e couves-flores)
Fim.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
“A precoce crise da meia idade” ou “Um quarto de idade envelhecida”
Noite de sexta-feira, jovens bebem cerveja barata e quente interditando a calçada com seus corpos pseudo-altivos. Caixas de som, às centenas, berram estranguladas por agudos mal equalizados de uma música pop qualquer.
Lazer?
Inferno. Diria o casal taciturno sob a luz amarela do poste da esquina com seus copos descartáveis em punho. Somados não atingem a marca de meio século, mas no meio da balburdia carioca anotam em seus caderninhos cada item do conjunto de exemplares do processo de debilidade humana corrente em nosso fim de século estendido.
Gente mais sem visão,
sem autenticidade,
sem conteúdo,
sem brio,
sem raciocínio,
sem retidão,
sem cultura,
sem atrativo,
sem sinapse,
sem cérebro,
sem higiene... deus, como fedem.
Repugnante; diriam e dizem.
Gente cheia de frescura,
de nariz empinado,
metida à gostosa,
gente fugaz,
superficial,
gente fútil,
gente massa de manobra,
gente pequena,
gente embebida em similares de perfumes importados,
gente plastificada em recortes da capa de “Caras” e maltrapilha de boca aberta.
Gente medíocre.
Preciso de sexo. Diria ele.
Eu também. Diria ela.
Desesperançados olham os milhares de indignos corpos a se rastejarem pela madrugada carregados de sujeira, drogas e música ruim.
Ninguém interessante,
ninguém atraente,
ninguém inteligente,
ninguém pertinente,
ninguém iluminado,
ninguém desmimetizado do cinza-choque-pink urbano,
ninguém afável,
ninguém amável,
ninguém pra me chupar.
Fim de noite interrompida, retorno ao lar cada qual. Retorno ao mesmo de sempre. Retorno ao mesmo ponto dividido em dois, minto, dividido em mil.
Masturbação, esperma e solidão. Diria ele.
Masturbação, gozo e frustração. Diria ela.
Lazer?
Inferno. Diria o casal taciturno sob a luz amarela do poste da esquina com seus copos descartáveis em punho. Somados não atingem a marca de meio século, mas no meio da balburdia carioca anotam em seus caderninhos cada item do conjunto de exemplares do processo de debilidade humana corrente em nosso fim de século estendido.
Gente mais sem visão,
sem autenticidade,
sem conteúdo,
sem brio,
sem raciocínio,
sem retidão,
sem cultura,
sem atrativo,
sem sinapse,
sem cérebro,
sem higiene... deus, como fedem.
Repugnante; diriam e dizem.
Gente cheia de frescura,
de nariz empinado,
metida à gostosa,
gente fugaz,
superficial,
gente fútil,
gente massa de manobra,
gente pequena,
gente embebida em similares de perfumes importados,
gente plastificada em recortes da capa de “Caras” e maltrapilha de boca aberta.
Gente medíocre.
Preciso de sexo. Diria ele.
Eu também. Diria ela.
Desesperançados olham os milhares de indignos corpos a se rastejarem pela madrugada carregados de sujeira, drogas e música ruim.
Ninguém interessante,
ninguém atraente,
ninguém inteligente,
ninguém pertinente,
ninguém iluminado,
ninguém desmimetizado do cinza-choque-pink urbano,
ninguém afável,
ninguém amável,
ninguém pra me chupar.
Fim de noite interrompida, retorno ao lar cada qual. Retorno ao mesmo de sempre. Retorno ao mesmo ponto dividido em dois, minto, dividido em mil.
Masturbação, esperma e solidão. Diria ele.
Masturbação, gozo e frustração. Diria ela.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
AC/DC
(o relato de um afro-caucasiano-brasileiro na produção da capacitação de professores pelo projeto A Cor da Cultura)
Parte 1 – AC (antes da Cor da Cultura)
Meu nome é Tadeu Lima, sou produtor audiovisual, tenho 28 anos, sou branco, de olhos claros, cabelo castanho cacheado e sardas no ombro.
Sempre me disse branco. De fato não sei se houveram negros na minha familia, a nossa memória se perdeu. Certamente, algum de meus antepassados é negro. Como diz a marchinha de carnaval “o seu cabelo não nega...”. Mas o fato é que dos meus avós para trás, pouco ou nada se sabe. O que sei é que a família da minha mãe era do interior do Espírito Santo, da periferia rural de uma cidade chamada São José dos Calçados. A família do meu pai veio de Olinda-Pernambuco para o Rio de Janeiro, em busca de uma vida melhor. Típicos brasileiros.
Cresci entre negros e brancos, meu pai bebia uma cervejinha com os amigos de trabalho no fim de semana. Pra mim importava mais o fato de que estavam sempre falando alto... bebados na maioria das vezes.
Minha tia tem uma vizinha negra que é madrinha de seus filhos.
Volta e meia eu era “rezado” para curar o “quebranto” por uma negra gorda que muitos chamavam de “macumbeira”, mas que eu sempre encontrava nas missas.
“Comadre” e “Comprade”, era como todos nós chamávamos os pais de uma família que vivia numa grande casa num bairro arrumadinho da baixada fluminense: a Venda Velha. Perto do shopping, a promessa da linha dois do metrô até a Pavuna fazia da casa deste casal, em São João de Meriti, uma área nobre de se morar.
Isso é pra dizer do ambiente onde cresci. Brancos e negros iguais, com negros em situação econômica até melhor que a nossa. Ou seja: pra mim, negro nunca foi sinônimo de “menos”.
Fui criado na Igreja Católica, cresci na fumaça deixada pela Teologia da Libertação. Os reacionários do Vaticano já ampliavam seu controle, mas ainda havia muita comunidade de base espalhada pela Baixada Fluminense. Na paróquia da qual fazia parte, a catequista era uma senhora negra, orgulhosa de sua cor, mas com lindos cabelos alisados; nas missas, atabaques e pandeiros faziam parte dos instrumentos e vez ou outra aparecia um grupo fazendo uma tal de missa dos quilombos, ou missa afro-brasileira como ficou conhecido o movimento depois.
Estudei em escolas particulares durante todo o ensino fundamental e numa grande escola estadual durante o ensino médio. Numa época em que a Lei 10.639/03 ainda não existia. Pouco, ou quase nada, me foi dito sobre a África ao longo destes anos. Mesmo assim, sempre soube que o Egito é parte da cultura e história da África (apesar de boa parte da memória disso estar guardada em museus da Europa), sei o nome de uns 10 dos 54 países sem exigir muito da memória e que é o segundo continente mais populoso do planeta, sei ainda que dos 30 países mais pobres do mundo, pelo menos 20 estão na África...
Sempre achei a política de cotas para negros uma ação compensatória justa, é visível que os negros ainda são minoria na universidade.
Nunca julguei ninguém pela cor da sua pele. Nunca achei que eu era melhor que outra pessoa por causa do tom da minha pele. Nunca atravessei a rua no meio da madrugada imaginando que o negro na mesma calçada seria um bandido (e já fui assaltado várias vezes, por brancos e negros, por não mudar de calçada).
Enfim, cresci e formei minha personalidade num ambiente favorável às relações inter-raciais em igualdade de condições e direitos. Talvez por isso tudo tenha sido tão intenso estar na produção do projeto A Cor da Cultura. Eu, que nunca havia negado o racismo, passei a entender que mais que reconhecer que ele existe, é preciso superá-lo.
Parte 2 - DC (depois da Cor)
Fui chamado para fazer a produção das capacitações do projeto A Cor da Cultura, um projeto da Fundação Roberto Marinho que capacitou professores em vários estados brasileiros para uso de material pedagógico criado pelo Canal Futura visando aplicar a Lei 10.639/03, que institui a inclusão do ensino de História da África e História e Cultura Afrobrasileira no currículo do ensino fundamental e médio.
Num primeiro momento o que me chamou atenção foi o fato de viajar o Brasil pelo Projeto. Ir a Manaus, mesmo a trabalho, seria (e foi) uma experiência muito interessante, uma oportunidade de conhecer melhor o Brasil.
O projeto me levou a Manaus, Curitiba, Cuiabá, Londrina e Juazeiro do Norte.
Eu, branco, num projeto onde a maioria é negra, tratando um “assunto de negros”, causou estranheza. Por um instante de tempo bem curto, o olhar de alguns poucos foi de dúvida se eu realmente deveria estar ali, representando a instituição, falando em nome da produção do Canal Futura. Como se o fato de eu ser branco e de olhos azuis me tornasse menos apto para o trabalho no projeto, como se a escolha do canal em me colocar na produção do projeto estivesse equivocada. Afinal, não tenho a pele negra.
Esse jeito de olhar, esse pré-julgamento, me incomodou, mas durou por um tempo curto. Em alguns minutos meu jeito de trabalhar, meu lado divertido, cativara o grupo e eu já não era um “branco estranho”. Havia me tornado um pálido companheiro. E assim foi pelos últimos 45 dias.
Mas confesso que foi estranho sentir isso. Essa rejeição inicial, sem motivos, sem razão. Eu senti algo parecido com o que sentem os negros ao longo da vida. Senti o que muitos deles sentiram várias vezes ao serem impedidos de entrar numa agencia bancária pela porta “automática”; algo parecido com o que sentem os jovens negros numa entrevista de emprego quando sabem que perderão a vaga para o branco-de-olhos-azuis-sem-experiencia. Eu senti aquilo, por uma fração de segundos. E foi muito ruim.
Não estou querendo aqui dizer que sei com propriedade o que é crescer vendo os ídolos da tv nunca terem a sua cor. Não posso também dizer que foram inúmeras as vezes em que a porta do banco travou. Os táxis poucas vezes não pararam pra mim no meio da madrugada. Só me lembro de uma única abordagem onde o policial tenha sido menos gentil. Nunca percebi que alguém tenha mudado de calçada para me evitar. Poucas as vezes vaguei a procura de emprego. Conto nos dedos as vezes em que fui confundido com um vendedor de loja...
Não me entenda mal, amigo leitor, mas talvez estas observações possam parecer pequenas, preciso confessar que sempre me pareceram pequenas, afinal, eu nunca havia sentido o preconeito na pele. Nem por ser pobre, nem por ser gay. Mas, aquele olhar do primeiro encontro com a equipe. Aquela fração de segundos em que nada é dito e tudo é julgado, pela cor da pele... faz toda a diferença, e incomoda.
A mudança provocada pelo projeto A Cor da Cultura é uma espécie de conversão. Provocou mudanças intensas, reavivou utopias militantes, foi um divisor de águas. Acredito que não vou militar no movimento negro, existem outras questões que tocam diretamente no meu calo, e vou cuidar delas prioritariamente. Questões de gênero, o combate as DST’s, a violência e extermínio da população jovem, a vida política partidária, as reflexões sobre fé e cidadania, a ecologia... E nisso tudo, a militância negra é transversal.
Não dá pra continuar fazendo parte de uma sociedade que discrimina as pessoas em função da cor da pele, não dá pra continuar reproduzindo conceitos equivocados a respeito da presença negra no Brasil, não dá pra continuar marginalizando e ignorando a história e importância da população negra na identidade do povo brasileiro, não dá pra achar que temos o direito de não nos opormos às injustiças.
As pessoas do mesmo sexo tem direito de casar; as embalagens dos nossos produtos podem agredir menos o meio ambiente; podemos gastar menos papel, derrubar menos arvores; é preciso falar de sexo nas escolas, distribuir camisinhas entre os adolescentes; mulheres pobres podem parar de morrer em clinicas ilegais de aborto, a lei precisa garantir a dignidade das decisões sobre o próprio corpo; é preciso envolver-se na vida política do pais para que outros Tiriricas não sejam eleitos. E nisso tudo, a militância branca e negra é fundamental.
A Cor da Cultura me fez pensar em muita coisa. Cargas emocionais grandes, que me colocaram diante de situações novas, num momento em que muita coisa nova ta acontecendo na minha vida pessoal.
Ainda não sei qual é o próximo passo, mas sei que parado não dá pra ficar.
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